| Longa Jornada Noite Adentro |
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30.4.07
Esse é um blog defunto. Mesmo morto, ainda tem muito a dizer e por isso não pretendo tirá-lo do ar. O autor ainda continua por aí, e pode ser encontrado enchendo a cara em algum boteco. 9.2.05
Desde que me tiraram da madrugada para trabalhar de dia, deixei de ser um repórter policial para me tornar um pauta-para-toda-obra, um auxiliar de serviços gerais jornalísticos. A sina da maioria dos repórteres diários: a cada dia, ser obrigado a tornar-se um especialista num assunto diferente e do qual, muitas vezes, nunca ouviu falar. Neste Carnaval, fui cobrir os desfiles do Sambódromo e tive de me aventurar por textos que falavam sobre evolução, harmonia, abre-salas e comissão de frente, tendo acabado de descobrir o que essas expressões signficavam. No que dependesse de mim, eu comentaria o desempenho de cada escola com base na quantidade, na dimensão e na consistência dos peitos e bundas que colocasse na avenida. Mesmo lá, no reino de Momo, tropecei numa história de sangue e morte. A da velhinha cardíaca e diabética que saiu na ala das baianas e, logo nos primeiros passos de samba, tombou na avenida com o coração parado e chegou morta ao hospital. Final da madrugada, chego ao pronto-socorro da zona norte. Pergunto sobre "a mulher do Sambódromo que morreu" e o atendente me leva pelos corredores para falar com um médico na enfermaria. O doutor, um homem de bigode branco, mal humorado, conversa comigo ao mesmo tempo em que dá pontos na cabeça de um homem deitado sobre uma maca. - Não quero atrapalhar - digo, constrangido em meio à correria de enfermeiros e gente coberta de ataduras. Posso falar com outra pessoa e... - Pode falar comigo, mesmo. O que você quer? - Eu queria saber sobre a mulher que veio do Sambódromo - falo, tentando evitar encarar o homem de cabeça aberta sobre a maca, que me encara com os olhos arregalados enquanto é costurado. - Morreu - resmunga o doutor, sempre costurando. Já chegou morta. - Que hora ela chegou? - Ah, umas cinco e meia, por aí. - O nome dela? - O nome... Ah, dá uma olhada na ficha dela, com aquela enfermeira ali - e aponta a agulha ensangüentada para um grupo de enfermeiras, que ri de uma piada numa sala ao lado. Anoto os dados da ficha com a enfermeira e saio para o corredor. - Tem algum parente da mulher por aqui?, pergunto. O pronto-socorro é um local pequeno e feio, silencioso, com alguns poucos gatos pingados pelos corredores. Lembra um velório. E é o que os três parentes da mulher fazem no corredor, sentados num banco duro em frente à enfermaria. Estão velando. Ali estão o marido da mulher, o genro e a filha - uma menina com a cabeça enterrada nos panos da própria fantasia. - São aqueles ali - alguém me aponta. O momento imediato após a tragédia às vezes é propício para entrevistas. O parente da vítima fica tão desnorteado que não consegue entender exatamente o que aconteceu, e desanda a falar sem perceber exatamente o que está fazendo. Não é o caso: o morte desabou com toda a força sobre a família, que chora sem parar. Desisto da entrevista e volto para a sala de imprensa do Anhembi. No dia seguinte, todos os jornais dão a matéria como nota, sem destaque. São dias de colorido, confetes, peitos, bundas e anúncios nos jornais. Ninguém quer que a morte venha estragar o clima. Rabiscado por Repórter X às 6:15 PM 14.5.04
Branca e asséptica como o resto do aeroporto de Congonhas, a delegacia da Polícia Federal, naquela noite, recendia a merda. O cheiro vinha de um saco plástico cheio com 116 cápsulas de cocaína, dois quilos de pó, que haviam passado quatro dias entre o estômago e o intestino de um traficante nigeriano, uma mula à antiga Mula é como são chamados os pequenos traficantes encarregados de transportar a droga pelo labirinto internacional dos aeroportos. A ocupação exige sorte e sangue-frio para não ser detectado nos check-ins, além de criatividade para buscar os mais recônditos orifícios, fundos falsos e disfarces em que a droga possa ser enfiada. Já teve cocaína que foi misturada a tinta e pintada em quadros, ou usada para engomar ternos. E, claro, cocaína ingerida. Estômagos transformados em fundos falsos, corpos humanos vivos em maletas. É um golpe muito arriscado, mas que paga bem e só pode ser feito algumas vezes. Para não chamar atenção, os traficantes diversificaram o perfil das mulas. Cada vez mais, pegam pessoas de fora do mundo da malandragem. Gente sem passagem pela polícia, muitas mulheres, sem nacionalidade africana (angolanos e, principalmente nigerianos ficaram muito visados). Muitos não são bandidos de verdade, mas pessoas desesperadas, que pensam em salvar as finanças a partir do que - imaginam - será o único golpe de suas vidas. O nigeriano vestido em camisolinha de hospital na sala da delegacia era uma mula às antigas, do tipo que seria facilmente detectado nos aeroportos se escondesse a droga em esconderijos simples como um fundo falso de mala ou um colete amarrado ao corpo. Para eles, a opção é fazer da própria carne uma máscara. Foi o que ele fez. Cada cápsula tinha o tamanho de uma pilha pequena. Imagine engolir uma a uma. Uma, duas, três... cento e dezesseis vezes. Até ficar com o corpo dois quilos mais pesado. A polícia diz que os candidatos a mula treinam engolindo uvas e cenouras inteiras até conseguirem habilidades de uma Linda Lovelace. Uma vez no avião, um risco inevitável é que a droga resolva sair do corpo mais cedo. A mula só tem uma opção. Precisa ir ao banheiro, cagar as cápsulas, lavá-las com pasta de dente e... engolir todas de novo. Se ficar com a droga, o bicho come - corre o risco de ser preso ao entrar no outro país. Se jogá-la fora, o bicho pega - os traficantes do país-receptor são capazes de abrir sua barriga em busca das gramas que estão faltando. O nigeriano daquela noite bem que tentou, mas não conseguiu. Nenhuma cápsula estourou - se isso tivesse acontecido com qualquer uma das 116, ele voltaria para casa num assento de madeira. Mesmo assim, parte da cocaína foi absorvida pelo seu estômago e ele ficou muito louco. Cagou por todo o banheiro e chamou a atenção da tripulação, que avisou a polícia. Foram precisos quatro policiais federais para segurá-lo e levá-lo ao pronto-socorro. A pior parte veio depois. Durante quatro dias, o negrão com 1,80 m teve de ficar de quatro numa cama de hospital, soro na veia e um grande tubo no rabo, sem colocar nada na boca além de um suquinho de laranja. Entre suas pernas, além do tubo, um balde destinado a recepcionar suas contínuas diarréias e a droga contida nelas. Depois, foi forçado a catar as cápsulas em meio à própria merda. E depois ir para a cadeia, puxar pelo menos oito anos. Tem horas que o crime não compensa, mesmo. Rabiscado por Repórter X às 8:31 AM 13.5.04
![]() (Inaugurando nova seção esporádica no blog) Para ir a um puteiro, o único item imprescindível é o dinheiro. Todo o resto, inclusive o tesão, é dispensável. Por outro lado, a lista de itens opcionais que os putanheiros escolhem para levar aos bordéis não tem fim. Como explica Mademoiselle Cleah: Eu tinha um cliente com a fantasia de ser tratado como uma empregada doméstica. Quando a gente saía, ele levava uma maletinha com uniforme completo. Tinha vestidinho, avental, pano de chão, espanador... Ele vestia a roupa e depois queria que a gente obrigasse ele a limpar o quarto todo. Madame Cleah tinha outros clientes que também gostavam de levar seus "extras" para o quarto. Tinha Doutor Pinochi, um empresário rico lá do Norte. Era um velhinho magricelo, seco. Da primeira vez, ele chegou curvado numa bengala, arrastando as perninhas fininhas. Quando ele tirou a roupa, eu tive que segurar para não dar risada. Não subia mais nada lá. E nem precisava, porque ele logo abriu uma maletinha e tirou de lá um consolo preto. Enorme! Comprido e grosso. Eu fiquei assustada e já fui falando: Você não vai enfiar isso em mim, não. Não é pra você, não, minha filha, ele disse. É pra mim. O velhinho ficou de quatro na cama. Amarrei o troço na cintura e fui entuchando no homem. E ele agüentou? Ih, aquele ali! Entrava até o talo. Depois de um tempo, ele ainda começou a gritar: isso, Jorjão, força, Jorjão, vai, Jorjão. E eu lá, de Jorjão, indo e vindo... O pior é que ele tinha o intestino frouxo. Quando vi, a cama foi ficando marrom. Fiquei sabendo o que ele tinha comido na janta. Era açaí. Na falta de um item opcional, é preciso improvisar. Tipos como esse Pinochi é o que mais tem. Outro dia apareceu um que era a cara do Fidel Castro. A barba, o jeito. Só faltava o uniforme. Pensei: esse aí vai me fazer suar. Quando fomos para o quarto da boate, não levantava de jeito nenhum. A gente fazia numa posição, fazia em outra, e nada. Eu já entendi o que ele queria, mas fui na manha, porque fiquei com medo dele ficar bravo e me bater. Passei de leve a mão na bunda dele. Tóóóóiiiim, o pau dele levantou. Ah, era isso, mesmo. Vesti a camisinha na mão e fui. Um dedo. Dois dedos. Três. O Fidel Castro queria mais. Perguntei se ele não queria que eu saísse do quarto pra buscar um vibrador lá no bar, e ele: Acho que vai pegar mal, porque é a primeira vez que eu venho aqui. Você não teria outra coisa? Acabei enfiando um desodorante de rolo nele. O cara adorou e ainda voltou outras vezes. Às vezes, as garotas não precisam se esforçar para fornecer ao cliente o adicional desejado. Basta seguir os impulsos da natureza. Era o caso de um cliente especial da Mademoiselle Cleah. Ele chegava na casa e começava a pagar champanhe para a gente. Eu ia tomando, tomando... Quando eu levantava e pedia dá uma licença, o cara se acendia. Não, vamos descer. Arrastava a gente para o quarto. Da primeira vez, eu não entendi o que ele queria. O cara lá sem roupa, deitado na cama. Eu, toda apertada, falei: Dá uma licença, eu vou no banheiro. Não, não, ele disse, e apontou para a boca aberta: - Faz aqui, faz aqui. E lá fui eu me esvaziar em cima dele. Estava tão bêbada que não conseguia mirar e ele teve que ficar se contorcendo pra receber o jato na boca. E a lista de opcinais de Mademoiselle não acaba. Tem de tudo, meu filho, tem de tudo. Você acredita que tinha um homem que levava pílula purgante para dar às meninas? Eu saí só uma vez com um desses. Eu tive a diarréia de olho fechado, em cima dele, e depois saí correndo para o banheiro. Não tive coragem de olhar para o cara. Tive vontade de vomitar. Também tinha um que queria ser feito de escravo. Com uma coleirinha, lambia o chão inteiro do motel, e depois bebia a água da privada. É... E sabe o que é pior? Esses caras, todos, têm namorada ou são casados. Depois de tudo, eles vão para casa e beijam as mulheres deles na boca. Que nojo! E ainda perguntam por que a gente não beija. Rabiscado por Repórter X às 10:14 AM 5.5.04
A maior parte dos policiais só conhece meia dúzia de armas, marcas e calibres, o feijião-com-arroz do seu dia-a-dia. Revólver, pistola ou escopeta. .22, .32, .38, .40, .45, .380, 7.65, ou .9 mm. Rossi, Taurus ou Glock. Fora disso, as armas são tão estranhas como se fossem extraterrestres. Exagero? Hoje falei com um soldado de São Caetano do Sul, que coçou a cabeça diante de uma metralhadora e um fuzil que havia apreendido. Quando perguntei que tipo de armas eram aquelas, o PM as examinou, intrigado, antes de responder: - Bom, essa aqui é uma submetralhadora. Calibre 9 mm. Hummm... é brasileira. E o outro é um fuzil. Calibre 45. (viu a marca Uru). Hummm... esse é uraniano. Rabiscado por Repórter X às 10:32 AM 30.4.04
O avanço tecnológico que equipou os presídios com telefones celulares pode ter causado várias dores de cabeça às autoridades. De uns tempos para cá, a opinião pública inflamada não cansa de exigir a instalação de bloqueadores de celulares nas tais unidades prisionais (pessoalmente acho que a prioridade deveria ser colocá-los nos cinemas e teatros, mas aí é outra história). Para os jornalistas, porém, os celulares nos presídios são uma mão na roda. A cobertura de rebeliões, por exemplo, mudou total. Eu ainda peguei o finalzinho da fase pré-histórica, quando trampava num jornal do interior e ainda eram poucos os celulares atrás das grades. Cobrir uma rebelião significava ficar horas na porta do presídio, olhando para as muralhas e o entra-e-sai dos carros e seus luminosos. Para passar o tempo, entrevistar um outro parentes choroso que estivesse por ali, mas que sabia tanto sobre a rebelião quanto você. E a gente ficava lá, até que o diretor ou um policial tivesse o nobre gesto de vir nos passar a versão limpa e oficial dos fatos, bem depois que tudo estivesse acabado. Na era dos celulares, é outra coisa. Os parentes de presos viraram fontes das mais ricas. Alguns minutos de conversa com eles, meia dúzia de sorrisinhos e críticas à polícia logo rendem uma lista com os principais "ramais" da cadeia. Os presos normalmente são solícitos ao telefone e adoram falar. Alguns nem se importam de falar exatamente o que estão fazendo no momento: - São sete mortos, aqui, que a gente matou eles. Epa... Peraí, esse aí vai também? Ah, tá. São oito, então, tá? Os policiais olham desconfiados para os repórteres que caminham com seus celulares na frente do presídio, mas sabem que não podem fazer nada. Nas conversas com os detentos, dá para saber sobre as disputas internas da prisão e até para falar com reféns - os quais, com a faca literalmente no pescoço, sempre fazem questão de frisar que estão sendo "muito bem tratados" pelos presos. Enfim, ter acesso a uma outra fonte diferente da oficial. Alguns jornalistas chegam a cativar suas fontes intramuros. Na última rebelião que cobri, no Centro de Detenção Provisória do Belém, ouvi de um preso para quem telefonei: - Jornal? Não vamos falar, não. A gente aqui só fala com a TV Bandeirantes. E a orientação editorial não pode ser esquecida. Depois de falar durante horas ao telefone com os presos, o repórter deve, ao escrever o texto, escancarar sua indignação com o uso de celulares nos presídios. Se possível, usar a palavra "absurdo". Rabiscado por Repórter X às 8:31 AM 17.3.04
![]() Poucas histórias foram tão bizarras quanto a do Zé Galinha de Itapevi, o que foi assassinado duas vezes. O ódio que despertou em vida foi tão grande que uma morte não foi o bastante para seus inimigos. Eles tiveram de matá-lo pela segunda vez, arrancar sua cabeça e arrastá-la pelas ruas. Não que a razão de tanto ódio fosse um mistério: - O Zé Galinha? - o policial se lembrava. - O Zé Galinha era um pé de pato. - Mas isso já tá virando uma granja... "Pé de pato" é o apelido dos matadores de bandidos, categoria profissional que ganha até dos estupradores e X-9 (cagüetas) na lista dos mais detestados pela malandragem. A primeira morte de Zé Galinha foi em sua casa, com cinco tiros. Já estava enterrado há dez dias quando dois homens invadiram o cemitério armados e fizeram cinco reféns. Os bandidos apontaram o revólver para a cabeça de uma servente, encarregada de preparar os cafezinhos dos velórios, e ameaçaram matá-la se não fosse obedecidos. Os outros quatro (um guarda municipal, um coveiro, um motorista e seu ajudante) resolveram entregar o que os bandidos queriam. - Viemos buscar a cabeça de um pilantra - disseram. - Ele matou um amigo nosso. O grupo passou pelo pórtico com a inscrição O que hoje sou amanhã serás e chegou ao jazigo da família Rodrigues, onde Zé Galinha estava sepultado. Com a mão no gatilho, um dos bandidos disse aos homens que arrebentassem as paredes do túmulo. Ainda havia flores sobre ele. Dez dias. Por este tempo, segundo a medicina, o cadáver entra no período gasoso: a mancha verde que nasce no abdômen já se espalhou por outras partes e os gases da decomposição tomam conta de todo o corpo. É quando rosto, pescoço, barriga e órgãos genitais incham a níveis absurdos, olhos e língua saltam, o cu se abre e libera uma porção do intestino. Era assim que Zé Galinha se mostrava. Depois de retirá-lo do túmulo, o guarda e os três funcionários foram obrigados a decepá-lo. Tentaram primeiro com uma pá, sem sucesso. Com facão e serrote, o grupo conseguiu remover a cabeça e entregá-la aos bandidos. Toda a ação levou cerca de duas horas. Os bandidos foram embora e largaram o troféu numa rua a um quilômetro do cemitério. Os carrascos involuntários da segunda morte de Zé Galinha continuavam pálidos e de mãos trêmulas na delegacia, horas depois de abandonarem o cemitério. A cabeça já estava no rabecão, aguardando para ser periciada e depois novamente sepultada. - Parece uma daquelas máscaras de filme de terror - comentou um PM, abrindo as portas do rabecão para dar uma "espiadinha básica". E para mim: - E aí, quer ver também? - Não, obrigado. Na época, eu tinha vergonha de assumir minha morbidez. Hoje, me arrependo de ter perdido a oportunidade de conhecer o rosto de Zé Galinha na sua segunda morte. Rabiscado por Repórter X às 6:47 AM 3.3.04
Um gorila, não o mordomo, é o assassino na primeira história policial moderna, Os crimes da Rua Morgue, do mestre Allan Poe. É o macacão crescido que escapa do dono para estraçalhar mãe e filha dentro de casa. A ferocidade exagerada do crime é justamente um dos indícios que leva Dupin, o detetive-protótipo de Sherlock Holmes e (argh!) Hercule Poirot, a concluir que o assassino era um dos nossos primos peludos. O detetive racioalista achava difícil acreditar que um ser humano pudesse agir com tamanha crueldade sem sentido - lembre-se: isso foi antes de Jack Estripador, do Holocausto, da Bomba Atômica, enfim, do século XX. Pois a história policial do momento virou a rua Morgue de cabeça para baixo. É um gorila raquitico, de polegar opositor, que está matando os animais e transformando em morgue o zoológico de São Paulo. A única coisa parecida de que já ouvi falar foi o caso do "maníaco que odiava árvores" e envenenou várias delas num cemitério da cidade. No final, descobriram que o assassino de árvores era o faxineiro do lugar, cansado de varrer as folhas que elas deixavam. É, caro Poe. O ser humano é pior do que qualquer gorila. Ele nunca vai deixar de nos surpreender. Nunca mais. Nunca mais. Rabiscado por Repórter X às 9:51 AM 18.1.04
De um investigador da zona sul. "Outro dia apareceu esses nóias ladrão de ônibus no DP. Demos umas bordoadas neles e depois fomos até um bar tomar umas cachaças. Daí a gente voltou... você acredita que eles tinham fugido? Pegamos os dois na rua lá embaixo. Ai voltamos a bater um monte. A gente estava tudo bêbado, mesmo, cheio de cachaça na cabeça. E descendo a lenha, e descendo a lenha... Até o delegado titular apareceu e deu um murro num deles. O titular! Aí a gente viu que podia bater à vontade. Se até o titular estava participando, estava liberado. Descemos a lenha, mesmo. Sem dó." Rabiscado por Repórter X às 11:06 AM 13.1.04
![]() Algumas datas são especiais. A gente gosta de acreditar que a desgraceira que nos rodeia durante todo o ano deveria tirar folga em algumas datas, como Natal, Páscoa, Ano Novo. Por causa da misericórdia de Deus, que naqueles dias olharia para baixo envergonhada do péssimo serviço que fez. Por causa da esperança. Por causa dos astros. Por causa dos perus sacrificados, do Papai Noel, dos comerciais de Coca-Cola, do Roberto Carlos, sei lá. 25 de dezembro é uma data especial. Não é o dia para interrogar um homem suspeito de tentar estuprar uma menina de quatro anos. Esse tipo de merda acontece todo dia, mas não deveria ser assim numa data especial. Acima de tudo, é preciso evitar o trauma da criança. Ela ainda não sabe exatamente o que aconteceu com ela. Aquela menina esperta, que brinca de esconde-esconde com a soldado na sala do delegado, só sabe que um vizinho entrou no seu barraco, quando ela estava sozinha. Que, uma vez ali, aquele "homem ruim" a arrastou para a cama, arrancou sua calcinha com os dentes e que ia tentar fazer alguma outra coisa com ela. E que só não fez porque o seu tio entrou em casa e mandou o "homem ruim" embora. A soldado vai ao barraco e confirma: caída atrás da cama, está a minúscula calcinha rasgada. Ela e os colegas conseguem impedir a multidão de linchar o estuprador e o levam algemado. Antes de chegar à delegacia, os PMs conseguem fazê-lo confessar, usando uma técnica diferente da tradicional. Em vez do soco, o logro: Escuta, diz a soldado. A casa caiu. A família já estava desconfiada de você e colocou uma filmadora na casa. Ela pegou tudo. Se você contar tudo o que fez, do jeito que está na fita, vai ser melhor para você. O estuprador "se abre como uma rosa". Conta tudo. Do momento em que entrou no barraco de pau duro até a hora em que saiu correndo de lá. Na frente do delegado, ele repete tintim por tintim. E assina. Redondinho. A criança também deve ser ouvida. Mas o trauma precisa ser evitado. Ela tem quatro anos, não pode perceber que está sendo ouvida pela polícia numa delegacia, e o que isso significa. A soldado olha em volta e vê os pacotes de presentes doados pela comunidade para ser distribuída pela PM. No meio deles, há um gorro de papai-noel, que a policial resolve colocar na cabeça. Eu sou a Mamãe Noel, a soldado se apresenta à garotinha. Aquele lá é o Papai Noel - e aponta o delegado. Rô, rô, rô, é a risada do delegado, atrás do computador. Eu preciso falar com você, garotinha. Vou escrever uma carta para o Papai do Céu deixar aquele homem ruim de castigo. Eu preciso contar para o Papai do Céu o que ele fez. Rô, rô, rô Entre uma e outra pausa para brincar de esconde-esconde com a Mamãe Noel fardada e o Papai Noel sem barba, a menina vai contando, alegremente, como escapou de ser devorada pelo ogro. Algumas datas são especiais. A mesma soldado que me contou essa história também disse como reagiu na vez em que foi ameaçada por um grupo de perueiros, numa briga de trânsito próximo ao shopping Interlagos. Ela sem farda. Se eu falasse que era polícia, eles iam para cima de mim, lembra. Daí eu gritei: sabe com quem tá falando, mano? Aqui é mulher de mala! Os caras foram embora. Rabiscado por Repórter X às 10:06 AM
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